Dia Mundial do Refugiado 2026 – Até que Todos Estejam em Segurança
O Dia Mundial do Refugiado, que se celebra a 20 de junho, representa um momento de reflexão, assumindo maior relevância num contexto internacional conturbado, multipolar e complexo como aquele que vivemos.
Para quem acompanha as notícias não será surpreendente a escolha do lema “Until Everyone is Safe – Até que Todos Estejam em Segurança”, por parte do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Em todos os continentes co-existem conflitos armados e crises humanitárias, provocando deslocações forçadas. Para milhões de pessoas não existe alternativa senão fugir da guerra, de perseguições e de sistemáticas violações de direitos humanos.
Ora, o direito de asilo garante protecção e segurança em momentos como este.
Com efeito, o direito de procurar protecção ou asilo, foi inequivocamente reconhecido em 1948, na Declaração Universal dos Direitos Humanos, num contexto histórico de recuperação da II Guerra Mundial, que levou também, em 1950, à criação do ACNUR, a organização das Nações Unidas com mandato específico para assegurar a protecção internacional aos refugiados e à Convenção de Genebra de 1951 relativa ao estatuto dos refugiados.
Contudo, o direito de asilo permanece actual. Num mundo imprevisível, nunca se sabe quando será necessário invocar este direito para salvar a própria vida.
Assim, o Dia Mundial do Refugiado 2026, é mais do que uma efeméride, é um apelo à solidariedade, à empatia e à ação perante a imprevisibilidade da necessidade de protecção. É um convite para olhar além dos números globais e reconhecer as histórias das pessoas refugiadas. Homens, mulheres e crianças deixam para trás as suas famílias, os amigos, a sua cultura e os seus sonhos, levando consigo apenas a esperança de encontrar segurança, dignidade e uma oportunidade para reconstruir as suas vidas.
Apesar dos desafios que enfrentam, no país de origem, durante a fuga e nos países que os acolhem, onde são confrontados muitas vezes com a discriminação, a xenofobia e dificuldades de integração, os refugiados demonstram uma enorme capacidade de resistência, de coragem e de adaptação.
As suas histórias demonstram que, quando lhes é dada a oportunidade, contribuem de forma significativa para as sociedades de acolhimento, pois trazem consigo experiências e conhecimentos que enriquecem as comunidades. Por isso, a integração deve ser vista como uma oportunidade de crescimento social, económico e cultural.
O Dia Mundial do Refugiado 2026 representa também uma oportunidade para informar, combatendo a desinformação.
Segundo o ACNUR apenas 32% dos refugiados chega a países desenvolvidos, incluindo a União Europeia1. Na verdade, assistimos a um impacto geográfico desproporcionado de fluxos de refugiados. Por razões óbvias, os países onde se concentra a esmagadora maioria são os países mais próximos das situações de crise e conflito.
Portugal enfrenta chegadas descontroladas de refugiados? Existe um abuso do direito de asilo? Os números desmentem-no claramente. Nos últimos onze anos a média em Portugal. foi de 1,517 pedidos/ano. Em 2025 foram comunicados pela AIMA ao CPR 1,759 pedidos espontâneos de protecção internacional, e em 2026, até final de maio, cerca de 600 pedidos. Esta realidade clarifica a incongruência de recorrer a discursos alarmistas, centrados na necessidade de conter o número de refugiados e não na sua protecção.
Portugal tem uma longa história de protecção: encontra-se bem documentado o papel no acolhimento de refugiados durante a II Guerra Mundial, bem como durante a guerra civil espanhola. Na década de 90 do século passado acolhemos cidadãos Kosovares na sequência da guerra nos Balcãs. Mais recentemente acolhemos cidadãos Sírios e cidadãos Afegãos ao abrigo de programas humanitários. E, devido à invasão pela Rússia, acolhemos igualmente cidadãos provenientes da Ucrânia, que nos recordam que ninguém escolhe ser refugiado. Para além de país de acolhimento, Portugal foi também país gerador de refugiados durante a ditadura.
Em Portugal, o Conselho Português para os Refugiados – CPR, ONGD independente e parceiro operacional do ACNUR, é a entidade de referência da proteção internacional, desde 1991.
Há 34 anos que apoiamos e acompanhamos pessoas refugiadas e requerentes de proteção internacional em Portugal. Com uma dedicada equipa multidisciplinar prestamos apoio jurídico, social e psicossocial, acolhemos e integramos, transformando o refúgio numa oportunidade de recomeçar com dignidade. Gerimos três Centros de Acolhimento com capacidade para 182 pessoas: CAR1 (80 pessoas); CAR2 (90 pessoas) e Casa de Acolhimento para Crianças Refugiadas (12 pessoas) e ainda a creche e jardim de infância “Espaço A Criança” aberta a todas as crianças da comunidade onde se localiza. Todos os dias trabalhamos para que ninguém tenha de reconstruir a sua vida sozinho/a.
Por todos as razões expostas, o Dia Mundial do Refugiado continua a representar um poderoso símbolo de esperança “Until Everyone is Safe – Até que Todos Estejam em Segurança”.
Texto escrito por Mónica Farinha – Presidente do CPR – para a Plataforma das ONGD.